Hoje é o dia que eu talvez mais deteste
dos 365 dias que temos no ano. É o dia em que me lembro de cada passo, cada
minuto, cada olhar, cada lágrima.
É o dia em que o homem da minha vida, nos deixou aqui para nos
guardar de alguma outra forma.
É o dia em que as 6h15 de uma noite conturbada para nós foi
declarado o óbito do meu Pai!
Nessa hora ~20h40~ eu e minha madrasta estávamos chegando no
Aeroporto de Guarulhos numa noite chuvosa e fria, passamos o voo inteiro de
mãos dadas, em silêncio, num choro constante, mudo e extremamente dolorido,
tentando ofertar o pouco de força que tínhamos. Enquanto isso, estavam na estrada
meu irmão Fernando que era acompanhado por um grande amigo da família, seguido
pelo carro da funerária.
Já havíamos passado por um breve velório em Contagem -
MG, já estávamos esgotados, e ainda não tinha acabado, precisávamos contar
ainda para o nosso bebê, meu irmão mais novo João com 11 anos na época, encarar
o outro irmão Felipe, então com 14 anos, que era fissurado pelo nosso pai.
Ao chegar na casa dos meus tios onde estavam reunidos, duas
pessoas que jamais sairão do meu coração me receberam e prontos pra fazer o que
eu precisava que fizessem, estavam ali para me segurar enquanto eu desmoronava.
Não foi preciso de fato contar ao João o que havia acontecido, ao ver a mãe
dele, escutei sua reação agoniante, um grito, O grito, gutural, cheio de dor e lamentações seguido por um choro
incessante, enquanto eu me espremia no abraço debaixo de um guarda-chuva com o Todadinho Soldado.
Assim que consegui me recompor, entrei na casa e fui ao encontro
do pequeno, nos afundamos no nosso abraço mais triste e assim ficamos durante
um tempo, molhando os ombros um do outro.
Pude perceber meu esgotamento físico e emocional, ao apagar, não
desmaiei, mas sai do ar, pra mim estava no velório e acordei no sofá da casa do
meu pai coberta com a vizinha, a D. Ana cuidando de mim do Felipe e do Rafael,
outro irmão. O que me disseram é que pedi a chave do carro de um amigo pra
descansar um pouco, ele me levou embora, depois que eu briguei por que queria
ficar lá durante toda a noite.
Ele foi velado durante muito tempo, pois primos de Pernambuco
estavam chegando para o enterro.
O que me surpreendeu foram os olhares, olhares que desviavam dos
meus por medo de encontrar uma dor maior do que poderiam aguentar ver, olhares
dos desconhecidos de outros velórios que passavam compaixão e conforto,
reconhecimento dos sentimentos nos outros, olhares de crianças que não sabiam
de fato o motivo dos meus olhos estarem tão inchados e vermelhos que mal
abriam. Encontrei conforto nos abraços e afagos dos que menos de
"deviam" isso, e não recebi nem sequer uma palavra daqueles que por
obrigação deviam ter feito.
Contagem, 29 de março de 2010
Ana Flavia Cezar Mergulhão, 19 anos.
O dia em que uma menina entra sozinha num apartamento que nunca
antes havia entrado, para buscar o paletó que o pai dela seria enterrado.
O dia que afirmo que uma menina entrou num apartamento, e o gesto
de pegar o tal paletó, fez com que ela saísse de lá uma mulher.
Consciente do que viria pela frente e disposta a suportar por aqueles que ela amava.
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| Pai... |






Me arrepiei inteira... Esse dia vai ser sempre lembrado, essa dor não vai passar nunca, vai sim amenizar e só!!! Como já disse, chore quando tiver que chorar, desabe, mas não fique com nada guardado! Agora seu pai cuida de você com um outro olhar, de uma outra maneira, num outro plano!!!
ResponderExcluirEstou comentando mais para deixar aqui o meu registro, pois na minha mania de diminuir, não me sinto apta para fazer o 'cometário certo'.
ResponderExcluirNão posso dizer que entendo sua dor, mas respeito e admiro a sua força. :')
*pensando*
As palavras 'certas' não vem e eu sei que nada do que eu disser vai amenizar as lágrimas que possivelmente lavaram a sua alma hoje, mas eu estou com você e na medida do possível tento ser a pessoa menos insuportável da faculdadee uma boa amiga.
Eu não te conheço direito, não te entendo direito, mas eu te amo e quando a gente ama não precisa fazer muito sentido. Pelo menos é o que acho.
Fica bem na medida do possível e o Sr. Mergulhão te zela e te ama, onde quer que ele esteja, pois amor de pai é imortal. ;*