Dia 29 de Março



Hoje é o dia que eu talvez mais deteste dos 365 dias que temos no ano. É o dia em que me lembro de cada passo, cada minuto, cada olhar, cada lágrima.
É o dia em que o homem da minha vida, nos deixou aqui para nos guardar de alguma outra forma.
É o dia em que as 6h15 de uma noite conturbada para nós foi declarado o óbito do meu Pai!
Nessa hora ~20h40~ eu e minha madrasta estávamos chegando no Aeroporto de Guarulhos numa noite chuvosa e fria, passamos o voo inteiro de mãos dadas, em silêncio, num choro constante, mudo e extremamente dolorido, tentando ofertar o pouco de força que tínhamos. Enquanto isso, estavam na estrada meu irmão Fernando que era acompanhado por um grande amigo da família, seguido pelo carro da funerária.
Já havíamos passado por um breve velório em Contagem - MG, já estávamos esgotados, e ainda não tinha acabado, precisávamos contar ainda para o nosso bebê, meu irmão mais novo João com 11 anos na época, encarar o outro irmão Felipe, então com 14 anos, que era fissurado pelo nosso pai.
Ao chegar na casa dos meus tios onde estavam reunidos, duas pessoas que jamais sairão do meu coração me receberam e prontos pra fazer o que eu precisava que fizessem, estavam ali para me segurar enquanto eu desmoronava. Não foi preciso de fato contar ao João o que havia acontecido, ao ver a mãe dele, escutei sua reação agoniante, um grito, O grito, gutural, cheio de dor e lamentações seguido por um choro incessante, enquanto eu me espremia no abraço debaixo de um guarda-chuva com o Todadinho Soldado.
Assim que consegui me recompor, entrei na casa e fui ao encontro do pequeno, nos afundamos no nosso abraço mais triste e assim ficamos durante um tempo, molhando os ombros um do outro.
Pude perceber meu esgotamento físico e emocional, ao apagar, não desmaiei, mas sai do ar, pra mim estava no velório e acordei no sofá da casa do meu pai coberta com a vizinha, a D. Ana cuidando de mim do Felipe e do Rafael, outro irmão. O que me disseram é que pedi a chave do carro de um amigo pra descansar um pouco, ele me levou embora, depois que eu briguei por que queria ficar lá durante toda a noite.
Ele foi velado durante muito tempo, pois primos de Pernambuco estavam chegando para o enterro.
O que me surpreendeu foram os olhares, olhares que desviavam dos meus por medo de encontrar uma dor maior do que poderiam aguentar ver, olhares dos desconhecidos de outros velórios que passavam compaixão e conforto, reconhecimento dos sentimentos nos outros, olhares de crianças que não sabiam de fato o motivo dos meus olhos estarem tão inchados e vermelhos que mal abriam. Encontrei conforto nos abraços e afagos dos que menos de "deviam" isso, e não recebi nem sequer uma palavra daqueles que por obrigação deviam ter feito.

Contagem, 29 de março de 2010
Ana Flavia Cezar Mergulhão, 19 anos.
O dia em que uma menina entra sozinha num apartamento que nunca antes havia entrado, para buscar o paletó que o pai dela seria enterrado.
O dia que afirmo que uma menina entrou num apartamento, e o gesto de pegar o tal paletó, fez com que ela saísse de lá uma mulher.
Consciente do que viria pela frente e disposta a suportar por aqueles que ela amava.


Pai...

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Estou naqueles dias!




Não! Não aqueles dias de mulherzinha... mas, aqueles dias que nada parece fazer sentido, não há motivação, não há vontades, não há esperanças.


Alias até quando portas se abrem elas parecem ser mais obstáculos do que novas oportunidades, pequenas demais para uma giganta como eu!

Caminhando em círculos sem direção, mesmo sabendo onde quero chegar, não consigo traçar uma rota simples e fico fazendo loopings e loopings e mais loopings. E sei que só faço aumentar minha jornada desta forma.

Até mesmo esse postagem de meia dúzia de linhas está custando 1 hora da minha vida...

Mas SEI que na verdade é uma fase, fase essa que reconheço dos últimos três anos, o odiado dia 29 de março(!), entretanto logo ela passa, as portas voltam aos seus devidos tamanhos ou pelo menos beberei da vida o que ela me oferecer.


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Biografemos...






Eu Biografo
Tu Biografas

Ele Biografa
Nós Biografamos
Vós Biografais

Eles Biografam







Vamos as vias de fato.

Biografia = História escrita da vida de alguém, quase nua e crua.

Biografema = Nunca é uma verdade objetiva, o lado afetivo da biografia.

Ou seja, não é de se estranhar o lado que envolve o sentimento não ser objetivo... e justamente do simples se tornar massante, biografemos no lugar de biografar

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